Você é contra o desenvolvimento?

Por Sergio Gabrielli

Críticos do projeto de construção da ponte Salvador – Ilha de Itaparica argumentam que a solução para os congestionamentos na BR-324 é a criação de uma nova rodovia. Esta via, paralela aos trajetos atuais, ligaria a região de Aratu (Camaçari, São Francisco do Conde, Simões Filho e cidades do Litoral Norte) a Feira de Santana, como forma de escoamento do tráfego saindo e chegando à capital.

Esses críticos não se reportam ao grande desafio que é integrar Salvador ao sul do Recôncavo, Baixo Sul e oeste do Portal do Sertão, territórios entre os mais pobres do Estado.

Desprezando questões logísticas e a necessidade de desenvolvimento regional das localidades citadas, o engenheiro Fernando Alcoforado fez afirmações sobre a inviabilidade econômica do projeto sem considerar seu completo dimensionamento.

Alcoforado equivoca-se ao comparar os custos da ponte Rio-Niterói, com um plano de desenvolvimento. Não considera que o projeto do Governo do Estado envolve a construção de uma ponte, a duplicação da BA-001 na Ilha de Itaparica e da ponte do Funil, construção da ligação entre Santo Antônio de Jesus e Castro Alves, além da qualificação da infraestrutura viária regional, bem como intervenções relacionadas à infraestrutura urbana e social na ilha, investimentos que se desdobram em um plano de desenvolvimento.

Este plano, que em 2010 foi orçado em R$ 7 bilhões, atualmente está sendo revisto. Entre os motivos estão a redução da taxa de juros nestes três anos e o aprofundamento dos estudos de sondagem, engenharia, meio ambiente, correntes marítimas, impactos culturais e imateriais, bem como análises sobre o desenvolvimento urbano.

Esses estudos permitirão informações mais precisas, por exemplo, do tipo de fundação da ponte, detalhamento do projeto de engenharia e traçado das diversas intervenções necessárias neste novo anel rodoviário que ligará Castro Alves a Salvador, passando pela ponte.

Questões como o impacto no trânsito e a localização das cabeceiras da ponte em Salvador e na Ilha de Itaparica também são objetos de estudo e pautas de reuniões com os municípios envolvidos.

Outro argumento utilizado pelos críticos refere-se à prioridade na aplicação de recursos, como se o governo já não tivesse investido bilhões na área social e como se fosse possível deslocar investimentos segundo a vontade de cada um. Utilizando a desinformação de parcela da sociedade, esses críticos esquecem (de propósito?) como funcionam as diversas fontes e usos do dinheiro nos orçamentos públicos, visto que não há possibilidade de deslocar recursos de uma rubrica para outra.

Desde o início da administração atual, em 2007, o Estado aceitou o desafio de executar projetos estruturantes. Enfrentamos questões relacionadas à infraestrutura social, como a ampliação do acesso à água e ao saneamento, que beneficiaram mais de 4,5 milhões de pessoas e até 2014, investiremos R$ 7,7 bilhões. Também não nos esquivamos de intervir na conservação de 19 mil km de rodovias.

O Governo da Bahia promoverá o desenvolvimento socioeconômico de todo o Estado, o que inclui a Região Metropolitana de Salvador, Recôncavo e Baixo Sul. Também continuaremos investindo em soluções para a mobilidade urbana e logística. Por mais que os críticos insistam, a construção de novas faixas na BR-324 não alteram significativamente a realidade das áreas em questão.

Quanto à necessidade de melhorar a trafegabilidade na BR-324, o contrato de concessão do Governo Federal com a empresa Via Bahia especifica que o concessionário é obrigado a construir uma nova pista, em cada sentido, dentro do prazo de 12 meses, no momento em que o fluxo alcançar 70 mil veículos por dia. Mais outra pista está prevista quando o fluxo superar os 105 mil veículos/dia.

Um novo ciclo de desenvolvimento está em curso e o projeto da ponte Salvador – Ilha de Itaparica está inserido neste novo contexto. Nesse sentido, a Bahia se posiciona estrategicamente para captar ainda mais recursos do Governo Federal a fim de melhorar a vida de milhões de baianos. Penso que ninguém é contra isso.

Sergio Gabrielli é Secretário do Planejamento da Bahia.

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Por uma releitura da independência do Brasil

Por Albino Rubim 

A Independência do Brasil para a quase totalidade dos brasileiros está representada no quadro “Independência ou Morte” de Pedro Américo, pintado em Florença, 66 anos depois do acontecimento de sete de setembro de1822. Esta versão idílica, também conhecida como “Grito do Ipiranga”, sintetiza a visão da independência ensinada aos brasileiros. Uma independência sem luta. Um mero ato de Dom Pedro, filho do rei de Portugal. Em suma: uma transição pelo alto, como dizia Carlos Nelson Coutinho, sem a participação ativa da população.

A Independência do Brasil para a quase totalidade dos brasileiros está representada no quadro “Independência ou Morte” de Pedro Américo, pintado em Florença, 66 anos depois do acontecimento de sete de setembro de 1822. Esta versão idílica, também conhecida como “Grito do Ipiranga”, sintetiza a visão da independência ensinada aos brasileiros. Uma independência sem luta. Um mero ato de Dom Pedro, filho do rei de Portugal. Em suma: uma transição pelo alto, como dizia Carlos Nelson Coutinho, sem a participação ativa da população.

Nós baianos sabemos que a história da Independência do Brasil felizmente não se reduz a este quadro idealizado. Na Bahia, a luta pela independência durou mais de um ano, envolveu batalhas sangrentas e teve a participação ativa de índios, negros e brancos, de mulheres e homens, de escravos e homens livres, de pessoas de todas as classes sociais. O 18 de fevereiro em Salvador, o 14 de junho em Santo Amaro, o 25 de junho em Cachoeira, todos acontecidos no ano de 1822, e o Dois de Julho de 1823 em Salvador são datas expressivas desta longa e heroica luta dos baianos pela independência do Brasil.

As desavenças iniciais entre tropas de portugueses e de brasileiros que ocorrem Salvador no dia 18 de fevereiro de 1822 se transformaram depois em combates declarados e encarniçados, em especial após o grito do Ipiranga e naquelas regiões de maior concentração de tropas do exército português, a exemplo das então províncias: Bahia, Cisplatina, Grão Pará, Maranhão e Piauí. Mas em nenhuma destas províncias a luta teve a intensidade da Bahia. Nela a independência do Brasil foi consolidada.

O reconhecimento do Dois de Julho como data nacional, a partir do projeto da deputada Alice Portugal, deve ser encarado como momento relevante e ponto de partida para necessária releitura da história da independência no Brasil. Em lugar da versão simplificadora que reduz tudo ao grito dado nas margens do riacho Ipiranga, a independência do Brasil requer uma visão mais complexa, abrangente e brasileira, porque não restrita ao território paulista.

A Bahia pode e deve dar mais esta importante contribuição ao processo de independência do Brasil. No passado através da guerra de libertação. No presente por meio de outro tipo de luta, não violenta, mas de vital importância: a releitura simbólica da história da nossa independência. Por certo, devemos buscar aliados neste processo de revisão da história do Brasil. Os estados brasileiros, nos quais ocorrem lutas, são naturais companheiros de jornada. Com eles e com outros estados devemos buscar rever a história de nossa independência. Atos e atividades conjuntas são essenciais para viabilizar esta revisão, que, por certo, vai encontrar muitas resistências dos setores mais conservadores.

O Governo da Bahia, desde 2007, está empenhado na valorização da independência. A transformação do hino ao Dois de Julho no hino oficial da Bahia; a transferência anual da capital para Cachoeira no dia 25 de junho; o cuidado com o cortejo e a produção e divulgação de materiais sobre o Dois de Julho são exemplos desta atitude e deste compromisso.

Outras medidas estão em curso para fortalecer esta nova visão, tais como o mapeamento das comemorações da independência no estado da Bahia; a ampla divulgação da nova e complexa visão na Bahia, no Brasil e mesmo no exterior; a produção de obras de comunicação e de cultura, como jogo eletrônico e quadrinhos, e a conexão das lutas pela independência no Brasil com o que ocorreu, quase simultaneamente, em toda a América espanhola. Este último procedimento toma fôlego com a realização do Seminário Internacional Independências nas Américas que, entre 29 de julho e 1º de agosto, em Cachoeira e em Salvador, reúne estudiosos brasileiros e estrangeiros para refletir sobre os processos de independência do Brasil e da América espanhola.

O desafio colocado para os baianos – Governo, sociedade civil e comunidade cultural – não é pequeno: transformar efetivamente o Dois de Julho em uma data conhecida e reconhecida por todos os brasileiros. Isto significa, nada menos, que rever de modo radical a história da independência do Brasil.

Antonio Albino Canelas Rubim é Secretário de Cultura do Estado da Bahia e professor da UFBA.

2 de Julho : Uma data Nacional

 Por Sérgio Guerra        

A recente assinatura da presidenta Dilma reconhecendo o 2 de julho como uma “Data Nacional”, da estatura do 7 de setembro e outras similares, representa uma vitória do povo baiano e brasileiro, sujeito fundamental na construção da Independência do Brasil, cuja luta contra o julgo colonial português se inicia em junho de 1822, nas heróicas vilas e cidades do Recôncavo.

Após ser proclamada, pelo Príncipe Regente Dom Pedro, já então nomeado “Defensor Perpétuo e Constitucional do Brasil”, em 7 de setembro deste mês ano, mesmo assim, só vai se consolidar com as famosas vitórias do exército nacional, formado por brancos, negros e índios, com suas várias matizes de caboclos, cafuzos e mamelucos, irmanados nas trincheiras de Itaparica e Pirajá, culminando no desfile pela Estrada da Liberdade das tropas libertadoras, comemorando a derrota  definitiva do exército colonial português,  “neste dia de glória”, o 2 de julho de 1823.

Com justas razões a repetição desta entrada vitoriosa na cidade do Salvador se constitui uma justa (ré e bebe) comemoração do povo baiano, momento de congraçamento da população começando pelas madrugadas nos terreiros de candomblé e prossegue com as várias alvoradas nos bairros, prolonga-se com a missa solene na Catedral Basílica e termina, ou continua ainda, com os festejos “aos pés do caboclo” no Campo Grande, com novos e grandiosos encontros por toda a cidade.

Esta grande celebração cívica adquiriu, nos últimos anos da ditadura, um caráter de grande mobilização democrática inspirada no próprio hino desta data que assegura, com justa razão, que “…nunca mais o despotismo regerá nossa nação, pois com tiranos não combinam, brasileiros corações…”. Assim, após as manifestações de protesto e vaias às autoridades na saída dos caboclos, no Largo da Lapinha, seguíamos até o Terreiro de Jesus, onde após novos confrontos com a repressão policial, fardada ou a “Savack” de ACM, nos espalhávamos para comemorar as justas vitórias da “resistência democrática” contra a ditadura e a opressão.

Deste modo se sobressaía uma (bebe?) comemoração especial pelo motivo de aniversário de Zé Olívio que “espertamente” escolhera este dia para tal evento e era uma excelente oportunidade para celebrarmos com este valoroso companheiro a vida e a vitória das nossas conquistas, dentre elas se destacando a conquista da democracia, da anistia, das diretas já, da constituinte, e da fundação do PT e da CUT, instrumentos fundamentais da construção do Brasil que queremos. É por isso que ainda hoje, todo ano, “…neste dia de glória”, tomo uma e brindo. “Valeu Zé!”

Sérgio Guerra é professor de História. Escritor, Memorialista,

Sindicalista e, sobretudo, Amigo, Companheiro e Eterno Fã de Zé Olívio.